Conecte Conosco

Brasil

Por que ‘farmar aura’ virou mania entre jovens

Publicado

em

Houve quem torcesse o nariz diante do ruidoso grupo de jovens que ocupava a praça principal de Cametá, município no Pará, num sábado abafado de junho. “É esta geração que vai pagar minha aposentadoria?”, debochou um senhor.

“Se estão com tanto tempo livre, poderiam capinar um lote, né?”, ironizou outra pessoa. Ao centro de uma roda, adolescentes realizavam dancinhas, dessas que enchem as telas do Instagram e do TikTok, e distribuíam poses e “carões” em busca do título de Rei da Aura. Levou a melhor um rapaz que fez uma acrobacia num chafariz.

As cenas, que ganharam repercussão nas redes sociais, devem se repetir hoje à noite, durante a segunda edição do Campeonato de Farmar Aura.

Não se trata, porém, de uma tradição local. Por todo canto do país, eventos com nomes semelhantes têm provocado algazarra seguindo um roteiro parecido. A garotada se aglomera para descobrir quem, afinal, consegue “farmar aura” melhor. Não entendeu?

— Para a galera que nunca escutou, “farmar aura” significa acumular pontos de presença ou personalidade e ser o melhor no que faz — explica o frentista Gabriel Almeida, de 19 anos, conhecido pelo apelido Bigode, um dos tantos jovens brasileiros que incorporaram a expressão “farmar aura” ao vocabulário e foi o organizador da tal disputa na pequena cidade paraense.

— As críticas ao nosso campeonato, aqui na minha região, são muito grandes. Várias pessoas falam que os jovens estão perdidos. Não é uma coisa legal de ouvir… E, olha, eu só não capino um lote porque já trabalho.

Ao pé da letra

Dissecar a expressão “farmar aura” exige pouco esforço. A gíria nasceu nos videogames. Em jogos como “Minecraft” e “League of legends”, o verbo em língua inglesa “to farm” (que designa “cultivar” e, nas telas, é associado a ações repetitivas para acumular recursos, itens, pontos) ganhou uma versão aclimatada ao português: “farmar”. Mais tarde, juntou-se a “aura”, substantivo que, no linguajar das redes, assumiu a conotação de “carisma”, “astral” ou “capacidade de impressionar”. Dessa combinação, fermentaram subexpressões. “Sigma” é a pessoa bem-sucedida em “farmar aura”. “Beta”, por outro lado, define quem não anda de acordo com o “estilo” da vez.

Mais do que uma invencionice linguística, a gíria traduz um modo de vida de quem nasceu no país de duas décadas para cá. É como se um jogo não terminasse depois de um console de videogame ser desligado. Fora das telas, em vez de acumular moedas, poderes ou pontos para avançar de fases, o objetivo passa a ser outro: cultivar uma imagem capaz de render prestígio, admiração e reconhecimento — e, para isso, vale tudo, como usar o tênis da moda ou executar uma coreografia arrojada.

— “Farmar aura” é tipo construir uma reputação boa na parada — reforça o ator mirim e influenciador digital Isaac Amendoim, de 13 anos, com mais de quatro milhões de seguidores no Instagram. — Ser gente boa com a galera já aumenta a sua aura. Mas, para melhorar, tem que zerar uma fase difícil de um jogo na frente dos amigos ou fazer um passe de bola complicado. Ninguém solta uma jogada “braba” sem ganhar uns pontinhos de aura.

Mais-valia da imagem

Acadêmicos ouvidos pelo GLOBO apontam que não é casual o uso da palavra “aura”. Popularizado pelo filósofo Walter Benjamin (1892-1940) para denominar o caráter singular e irrepetível de uma obra de arte — basta pensar na “Mona Lisa”, cuja originalidade persiste apesar das várias reproduções mundo afora —, o conceito adquire, agora, um sentido quase inverso. Em vez de designar uma qualidade excepcional, passa a indicar um ativo que pode ser cultivado deliberadamente.

— As gerações que nasceram com a gramática do videogame descobriram que é muito importante acumular uma espécie da mais-valia da própria imagem — diz o psicanalista Christian Dunker. — Assim, tudo aquilo que alguém faria espontânea ou autenticamente pode ser usado para “farmar aura”. Você não lê um livro, mas anda com ele embaixo do braço; não toma café, mas vai à cafeteria da moda… Para além de extrair ou potencializar valores da própria vida, cria-se uma vida artificial. É a industrialização da aura que cada um já tinha, para mais ou menos.

Pureza da língua em xeque?

Toda vez que uma palavra importada de outros idiomas enche a boca de crianças e adolescentes, há quem vislumbre, tsc, tsc, o fim dos tempos para o português. A esse vaticínio apocalíptico, sobrepõe-se, como contraponto, outro clichê conhecido: a língua só está viva, com a musculação (e a boa forma) em dia, porque segue em movimento. Assim sempre foi e será. Caso contrário, não haveria mais o que ser dito ou lido.

O português, aqui ou alhures, sempre conviveu com empréstimos linguísticos. Vieram do árabe, do francês, do italiano, do inglês e de tantos outros idiomas, desembarcando no vocabulário, de bike ou chofer, sem que isso gerasse qualquer perda de identidade, tá o.k.? “Farmar”, portanto, apenas repete um mecanismo recorrente: uma palavra estrangeira é adaptada à fonética e à gramática local até parecer familiar. Até que isso aconteça, porém, há um bocado de resistência.

— As pessoas atribuem, muitas vezes, um purismo à língua. Se ouve “farmar aura” e não entende o sentido, porque não faz uso dessa produção no contexto de vida dela, já conclui que “estão acabando com o português”. Não se trata disso. Há usos da língua que são comuns a determinadas comunidades e não a outras — esclarece a linguista Jana Viscardi. — A inovação continuada é uma característica de toda e qualquer língua. Em tempos de redes sociais, é natural que os termos circulem rapidamente e também desapareçam com rapidez, à medida que outras novidades surgem.

Uma estimativa do filólogo Antonio Houaiss (1915-1999) mostrou que o vocabulário da língua portuguesa saltou de cerca de 50 mil palavras no século XVI para aproximadamente 500 mil no século XX. Hoje, a internet parece ter acelerado esse movimento, como consideram linguistas ouvidos pelo GLOBO. A impressão carece de confirmação científica justamente pela dificuldade em acompanhar a velocidade com que termos nascem e vingam.

— As redes sociais tornaram mais visível um processo que sempre existiu. Os mecanismos de criação de gírias continuam os mesmos; o que muda é a fonte, que agora passa pelo universo dos games — diz o linguista Carlos Alberto Faraco.

Mais do que nomear comportamentos, gírias funcionam como senhas de pertencimento. Dominar uma expressão é sinalizar afinidade com determinado grupo, geração ou universo. Não por acaso, muitas perdem força quando deixam de circular em nichos específicos e são adotadas por públicos mais amplos.

— Gírias têm a função primordial de marcar distância entre as gerações, e isso se faz pelo emprego de palavras e expressões que só conhece e compreende quem pertence ao grupo ou à geração — diz o linguista Marcos Bagno, autor de “Preconceito linguístico”.

Se entrar com recorrência na boca de adultos e idosos, “farmar aura” pode deixar, portanto, de fazer sentido. Em escolas, não é raro encontrar professores que já absorveram o termo a fim de se comunicar com os alunos de maneira mais efetiva. A maior parte dos estudantes, porém, acha “cringe” o comportamento. Aliás, “cringe” já é gíria ultrapassada.

— Meu professor de matemática entregou a prova e logo falou que queria ver todo mundo “farmando aura”, ou seja, ele queria ver 10 pra geral — conta a jovem carioca Aline Souza, de 11 anos. — Foi uma fala estranha, é claro! “Farmar aura” é só para adolescentes.

Vocabulário que nasce das telas

A seguir, veja outras “novas” expressões na boca dos jovens:

  • “6-7”: Em 2025, dicionários de língua inglesa elegeram a expressão “six-seven” como a palavra do ano. Ninguém imaginaria que o termo ganharia força global por tanto tempo. Da China ao Brasil, acredite, há uma molecada propagando a tal combinação numérica enquanto balança as mãos para cima e para baixo. O significado? Difícil decifrar. Mas em disputas de “farmação de aura”, a gíria e o gesto são trunfos. “Até hoje não consigo explicar direito para os meus pais. É mais uma vibe aleatória, que virou meme”, detalha o adolescente Isaac Amendoim. Oriunda da música “Doot doot (6-7)”, do rapper Skrilla, a palavra faz uma brincadeira com a cultura do “brain rot” (“cérebro podre”), marcada pela profusão de conteúdos viciantes e superficiais na internet. A reação de adultos diante do “6-7” é logo pedir um significado. A resposta, bem, são risos. Não, não há sentido.
  • “Tankar”: O verbo surgiu da palavra em inglês “tank” e designa “aguentar”. Refere-se à ideia de escudo, como tanques de guerra. Exemplo: “Não tankei o Neymar na seleção.”
  • “Rushar”: A palavra deriva de “rush” (“correr”, em inglês). Fora dos games, significa “fazer algo rápido”. Exemplo: “Vamos ‘rushar’ o dever.”
  • ‘Topar’: Pensou em “aceitar” ou “esbarrar”? Nada disso. A juventude usa o verbo para se referir a quem chegou ao topo — ou que está “top”.
Clique aqui para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe um Comentário

Copyright © 2024 - Todos os Direitos Reservados