Brasil
Madeira ilegal da Amazônia usada em decks na Holanda, alerta ONG
Um relatório recente da ONG britânica Earthsight revelou que grandes volumes de madeira provenientes de áreas investigadas na Amazônia foram exportados para a Europa. Esses materiais foram empregados em projetos de infraestrutura e áreas externas na Holanda.
Segundo a organização, essa situação mostra graves falhas nos sistemas que certificam e fiscalizam o fornecimento global de madeira.
O estudo, intitulado “Cuidado onde você pisa! O deck holandês construído com madeira suspeita da Amazônia”, identifica que a madeira foi fornecida pela Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda, uma empresa paraense que enfrenta múltiplas multas, suspensões e até condenação criminal.
A investigação contou com o apoio do Center for Climate Crime Analysis (CCCA) e utilizou imagens de satélite, decisões judiciais, documentos de transporte e registros de exportação vinculados às atividades da Samise na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no Pará, para confirmar a origem da madeira.
A espécie angelim-vermelho, amplamente empregada em decks, passarelas e construções externas, foi identificada no mercado holandês por intermédio de importadoras que comercializam madeira certificada para projetos de paisagismo e infraestrutura.
Empresas como a Hoogendoorn Hout e a Van den Berg Houtgroep, duas das principais importadoras europeias de madeira tropical brasileira, receberam produtos provenientes desta cadeia de fornecimento.
Rafael Pieroni, líder da Earthsight na América Latina, afirmou que a madeira investigada percorreu toda a cadeia, chegando ao mercado europeu mesmo após as sanções aplicadas, evidenciando falhas nos processos de certificação e fiscalização do comércio global de madeira.
Entre os fatos destacados pela investigação estão suspeitas de adulteração de identificação de toras avaliadas em valores significativos, suspensão das operações devido a indícios de fraude, transporte durante período de suspensão e venda a serraria que comercializa produtos nacional e internacionalmente.
De acordo com os dados da ONG, além de multas que somam aproximadamente R$ 7 milhões pelas infrações, a Samise também tinha débitos superiores a R$ 2,2 milhões com o governo federal, o que resultou em outra suspensão em março de 2025.
Certificação e suas limitações
A empresa possuía certificação do Forest Stewardship Council (FSC) desde 2016, mas enfrentou suspensões sucessivas entre 2023 e 2025, com o certificado cancelado somente em março de 2026.
Recentemente, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima comunicou a extinção do contrato com a Samise pelo Serviço Florestal Brasileiro, declarando que a empresa não cumpriu os acordos firmados. A Samise ainda pode recorrer da decisão em até 10 dias.
O relatório indica que a certificação FSC permaneceu válida durante grande parte do período em que a empresa acumulava sanções ambientais, revelando limitações do sistema de certificação e da fiscalização prevista pelo Regulamento da União Europeia sobre Madeira (EUTR), que proíbe a importação de madeira ilegal e exige diligência dos importadores.
A Earthsight destaca que muitas empresas ainda dependem excessivamente das certificações ambientais para verificar a origem dos produtos, sem realizar análises independentes detalhadas, o que pode permitir que riscos importantes passem despercebidos na cadeia de fornecimento.
A ONG defende uma aplicação rigorosa da nova regulamentação europeia contra o desmatamento, com início previsto para dezembro de 2026, que exigirá controles mais rigorosos sobre a origem de produtos florestais comercializados na Europa.
Rafael Pieroni conclui que, com a chegada dessa nova legislação, as empresas precisarão ir além da simples verificação de certificados ambientais para garantir a legalidade dos produtos comercializados.

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